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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Poesia: sabe-se lá o que elas dizem enquanto tomam chá

senhoras estão sentadas a tomar chá
conversando sobre a paisagem, quem sabe
conversando sobre a cor de seus vestidos
ou outros trajes
sobre a novela talvez elas conversem
sobre o brilho dos olhos do menino,
sobre o filho do vizinho,
sobre o cheiro que sentiram
ou sobre o que ouviram falar...

...mas só se ouve o barulho do trem
sabe-se lá o que elas dizem enquanto tomam chá


e naquele vagão
e nos outros que se seguem
não há mais ninguém

e não há sol sobres trilhos
somente o brilho e os olhos de um menino
que dentro da locomotiva
estava a guiar


-você fez cocô?
perguntou a vovó

e o trem descarilha no exato momento

em que o bebê é puxado e
colocado,
junto com a locomotiva,
sobre o divã

o Bêbe chora,
a vovó faz biquinho e diz coisas indecifráveis.
às vezes é muito difícil entender os adultos
pensa o bebê

e as senhoras do vagão
parecem não se importar com o trem
independente do movimento que o trem faça,
enquanto vovó aperta a fralda,
elas não param de falar


...mas só se pode ouvir o choro do bebê
sabe-se lá o que elas dizem enquanto tomam chá

um carro faz a curva
há varios carros atrás
e outros mais a frente
mas piloto como aquele não há

ele ultrapassa um
passa dois e passa três
entra na reta e cruza em primeiro lugar

e tudo isso de ré

e enquanto o carro cruza a linha de chegada
a multidão aplaude
e senhoras na primeira fila
conversam com suas xícaras na mão...


...mas se pode ouvir a multidão
sabe-se lá o que elas dizem enquanto tomam chá

debaixo da mesa onde as senhoras se encontram
mora uma cachorra
e ao parceber que as migalhas pararam de cair
ela se levanta e caminha sobre a multidão
e lambe a cara do bebê
que recebia o prêmio no alto do pódio

e enquanto a cachorra lambia
enquanto o bebê dava galhadas e sorria
as senhoras na primeira fila
com suas chícaras vazias estavam a falar...


...mas só se pode ouvir o riso do bebê
sabe-se lá o que elas dizem enquanto tomam chá

-Raoni Gruber
06/05/11
03:36 am

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Poesia: Manuel Bandeira

Poética


Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
[protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar
[com cem modelos de cartas e as diferentes
[maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pugente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Poesia: Caio Fernando Abreu

Talvez um voltasse, talvez o outro fosse.

Talvez um viajasse, talvez outro fugisse.

Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos,

dominicais, cristais e contas por sedex

(...)

talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não.

Talvez algum partisse, outro ficasse.

Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego.

Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos,

talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro,

ou viajassem junto para Paris

(...)

talvez um se matasse, o outro negativasse.

Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida,

quem sabe.

Talvez tudo, talvez nada...

talvez....


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 22 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Poesia: Wally Salomão - Devenir, Devir

Devenir, devir
Término de leiturade um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

essa chama que arde no peito

Acende o fogo
joga lenha
Essa chama que arde no peito
Não
tem
nome
o
amor,
ele chama o universo
que fica pequeno sem você.

O que é a luz?
o que é a escuridão?
O que é desejo?

Seu sorriso vejo
brilha mais que qualquer sol,
se propaga na imensidão
irradia amor.

Explode BIG BANG!
um recomeço
a delícia de teu beijo
me enche o peito
Queima,
arde...

Ah, que calor!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Bocejo.
tô com sono mal dormi

mosquito
mordida
amor
como um beija-flor

pétala
pena
pólen
bico, picada.

madrugada
na janela aberta a luz entrava

junto com o calor
e o mosquito beijava a flor

fechei os olhos,

dormi.


já é hora de acordar.
Abre o portão?
trabalhamos todos em prostíbulos
onde não vendemos apenas nossa alma,
vendemos também
nossos sonhos e nosso suor.
chego as vezes a invejar
certas donzelas
que se vendem por inteiro
e ainda assim conseguem gozar
do suor derramadO.

terça-feira, 17 de março de 2009

Poesia: Estúpida sapiência

a estúpida sapiência
cegou o sábio
que por julgar saber demais
privou-se de aprender

segunda-feira, 16 de março de 2009

POESIA: 'POESIA LIBERTÁRIA', de Luc Gabriel

POESIA LIBERTÁRIA

Ausente de amarras,
Flui a poesia
Impregnada da pura sensibilidade do criador,
Que retrata o idiossincrático
E desafia o convencional,
Não raro, desfechando o despercebido,
Apresentando a beleza do ignorado,
Ganhando a repulsa dos ressentidos puritanos.

Sem medos.
Assim se desenvolve a poesia libertária.
O singelo toque da caneta no papel,
Num gozo de idéias irrefreáveis
Despidas de qualquer pré-conceito,
Expondo o íntimo desguarnecido do poeta,
Sujeito a todo tipo de vis ataques
Do sabre débil da incompreensão.
Com na ausência,
No nada, no tudo, no conveniente;
Profanando o estabelecido,
A Lótus extasia e enraivece.
Libertária, sempre libertária,
Colorindo de preto e branco
A mesmice cotidiana
Das verdades direcionadas.

Pássaro em busca do horizonte,
Assustado e contemplativo,
Viajante do mundo das sensações,
Angustiado pelo gigantismo parasita das convenções.
Mas livre!
Indubitavelmente livre!
Como há de ser o poeta.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

POESIA: Dia de Folga, Jacques Prévert

Pus meu quepe na gaiola
e saí com o pássaro na cabeça

Como é que é
não se bate mais continência?
perguntou o comandante
Não
não se bate mais continência
respondeu o pássaro

Ah bom
queira me desculpar
eu pensei que se batesse continência
disse o comandante
Está desculpado
qualquer um pode se enganar
disse o pássaro

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Poesia Marginal

Poesia: a Flor da Madrugada

Minha semente
caiu do bolso
e no esgoto
nasceu uma flor

E a dor de saber que a flor solitária
abandonada ficou

no meio do lixo
no meio do nada

e na estrada que atropela
minha quebrada
eu pude ver
um ser que cheirou a flor
da madrugada

18/09/07

Poesia: Jacques Prévert - Quel jour sommes-nous?

Quel jour sommes-nous?
Nous sommes toute le jour,
Mon ami.
Nous sommes tous la vie,
Mon amour.

Nous aimons et nous vivons,
nous vivons et que nous aimons.

et nous ne savons pas ce qui est vie,
et nous ne savons pas ce que le jour,
et ne sais pas ce que qui est l'amour.


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Qual dia somos nós?
Nós somos todos os dias,
Meu amigo.
Nós somos toda a vida,
Meu amor.

Nós nos amamos e nós vivemos,
nós vivemos e nós nos amamos.

e não sabemos o que é a vida,
e não sabemos o que é o dia,
e não sabemos o que é o amor.

Poesia: Quem Sabe

sem poesia tudo é oco

e
no
sufoco

louco

sobrevivi.

li,
reli,

escrevi...

mas que diabos o poeta quer dizer?!
eu não sei.

quem sabe?

...quem sabe a folha vazia saiba do poeta.
...quem sabe a tinta saiba do poeta

...quem sabe a poesia saiba do poeta

quem sabe...